Quando em 1974, entre as paredes úmidas do clube nova-iorquino CBGB, ressoou o comando "1-2-3-4!", que desde então se tornou mundialmente famoso, parte da audiência ouviu apenas ruído. Mas havia alguém atrás da bateria que sabia exatamente que o que estavam a fazer era o futuro.

Há doze anos faleceu uma das figuras mais determinantes da história do rock, de origem húngara: Tamás Erdélyi, que o mundo conheceu como Tommy Ramone, o baterista fundador, mente musical e produtor da lendária banda Ramones. Embora o seu nome estivesse fundido com a cena punk de Nova Iorque, a sua história começou em Budapeste: nasceu aqui, passou aqui os primeiros sete anos da sua infância, antes de a sua família emigrar para os Estados Unidos após a Revolução de 1956.
RAÍZES EM BUDAPESTE E OS VERÕES EM NÓGRÁD
Tamás Erdélyi nasceu a 29 de janeiro de 1949, em Budapeste, numa família de intelectuais judeus. Os seus pais, Zoltán Erdélyi, pintor e fotógrafo, e a sua esposa, também trabalhavam como fotógrafos. Os seus pais sobreviveram aos horrores do Holocausto com a ajuda de vizinhos e amigos, enquanto vários membros da família foram vítimas do extermínio.
A família vivia no centro de Budapeste, no número 36–38 da Bajcsy-Zsilinszky út , logo acima do cinema Toldi. Entre as primeiras memórias de Tamás estavam a magia do cinema, onde passava muito tempo, e a Ilha Margarida, onde, influenciado por um baterista que viu numa atuação ao ar livre, construiu a sua própria bateria em casa com as mãos. Além da vida urbana, as experiências no campo também foram determinantes para ele: a família passava férias regularmente no condado de Nógrád, a cerca de 80 quilómetros de Budapeste. Esses verões próximos da natureza e a tranquilidade da aldeia contrastavam fortemente com a agitação posterior de Nova Iorque, mas constituíam uma parte importante da sua identidade precoce.
Iniciou os seus estudos escolares na Escola Primária Szemere Bertalan, no V distrito, situada a apenas duzentos metros da sua residência. Após a derrota da revolução húngara e da luta pela liberdade de 1956, a família decidiu emigrar. Tamás tinha apenas sete anos de idade. No último dia de aulas antes das férias de inverno, ao despedir-se, a criança disse à sua professora, Dona Margit, da forma habitual: „Vemo-nos no próximo ano!”. No entanto, a professora limitou-se a responder: „Talvez não.”
A família teve tempo de levar apenas os pertences que conseguissem carregar nas mãos. Fugiram primeiro para a Áustria e de lá chegaram aos Estados Unidos. Tommy recordou mais tarde que, para ele, em criança, a viagem parecia mais uma aventura, enquanto para os seus pais foi um período extremamente difícil.
CHEGADA À AMÉRICA: ELVIS E AS PRIMEIRAS BANDAS
A família chegou aos Estados Unidos em 1957. Após curtas passagens pelo Bronx e Brooklyn, estabeleceram-se em Forest Hills, Queens, no complexo residencial Verona Estates. Tommy recordou mais tarde que sempre foi uma criança mais reservada, por isso a adaptação ao novo ambiente custou-lhe menos do que a muitos outros imigrantes. Embora o húngaro fosse a sua língua materna, aprendeu inglês rapidamente, embora na adolescência ainda falasse com um sotaque húngaro perceptível. Em casa, a família manteve sempre a língua húngara. Este período coincidiu com a explosão do rock and roll: na rádio tocavam Elvis Presley, Little Richard e Jerry Lee Lewis, o que fascinou completamente o jovem Tamás. Durante os anos do liceu, em meados da década de 1960, sob a influência dos Beatles, ele também começou a fazer música. A sua primeira banda foi Tommy and the Tigers (mais tarde chamada Tiger Five). Por volta de 1966 fundou a formação Tangerine Puppets, na qual o seu colega de escola, John Cummings (o futuro Johnny Ramone), tocava baixo. Nesta banda, Tamás tocava guitarra e Johnny já era famoso pela sua presença de palco agressiva. Foi neste período que Tommy conheceu também Jeff Hyman, o futuro Joey Ramone.

FASCÍNIO PELA TECNOLOGIA: O RECORD PLANT E JIMI HENDRIX
Além de tocar, Tommy interessava-se igualmente pela „magia” do processo de gravação. Através de um encontro casual no metro, chegou a um estúdio onde soube imediatamente: este seria o seu caminho. Inicialmente trabalhou num estúdio de 8 pistas, e depois entrou numa das instituições mais modernas da época, o Record Plant.
Aqui pôde testemunhar o despertar da gravação multipista; trabalhou no estúdio onde se encontrava uma das duas primeiras mesas de mistura de 24 pistas do mundo. Colaborou como engenheiro nas gravações da era Band of Gypsys de Jimi Hendrix em 1969. Ficou impressionado com a humildade e a ética de trabalho de Hendrix. Além do trabalho de estúdio, a arte cinematográfica também o tocou profundamente: trabalhando para uma produtora de filmes, passava as horas de almoço em projeções no MoMA (Museu de Arte Moderna), onde conheceu o cinema de vanguarda. Esta estética minimalista de „menos é mais” tornou-se mais tarde fundamental na criação da imagem dos Ramones.
O NASCIMENTO DOS RAMONES E O MOMENTO „JUDY IS A PUNK”
No início dos anos 70, Tommy decidiu regressar à música ativa durante umas férias em Londres. Fundou uma banda de glam-rock chamada Butch, mas esta dissolveu-se rapidamente. Foi então que virou a sua atenção para os seus antigos amigos, Johnny e Dee Dee.
Originalmente, ele não pretendia ser membro da banda. Queria gerir a formação como manager e produtor no seu próprio Performance Studios, tendo sido ele a convencer Johnny Ramone a voltar à música. Tommy já tinha então uma visão clara da banda que queria criar: um grupo que tocasse canções curtas, rápidas e sem floreados, rompendo totalmente com a música rock da época baseada em longos solos de guitarra.
A formação inicial consistia em Joey (bateria), Johnny (guitarra) e Dee Dee (baixo/voz). Tommy percebeu cedo que Dee Dee não tinha fôlego para cantar enquanto tocava, mas Joey possuía uma voz especial, por isso colocou-o à frente do microfone. Começaram então a procurar um baterista, mas ninguém conseguia tocar o estilo tenso, simples e implacavelmente rápido que Tommy imaginava. Nos ensaios, acabou por ser ele a mostrar aos candidatos como deveriam soar e, por sugestão dos outros, ele próprio sentou-se atrás da bateria. Adoptou o nome Tommy Ramone e assim nasceu a formação clássica dos Ramones.
O momento decisivo, segundo as memórias de Tommy, surgiu num ensaio em Queens, quando os rapazes tocaram a canção Judy Is a Punk. Foi então que se deu conta de que algo completamente único, futurista e revolucionário tinha nascido. Tornou-se o „arquiteto” da banda, que unia os membros excêntricos e frequentemente conflituosos, ao mesmo tempo que assumia um papel determinante como baterista, produtor e compositor. I Wanna Be Your Boyfriend foi integralmente composição sua, e escreveu a maior parte de um dos hinos mais conhecidos do punk, Blitzkrieg Bop. A canção foi originalmente criada com o título de trabalho Animal Hop, Dee Dee Ramone deu-lhe mais tarde o título Blitzkrieg Bop, enquanto o cântico que se tornou lendário „Hey! Ho! Let''s Go!” também foi ideia de Tommy. O seu papel no desenvolvimento do som inicial dos Ramones é demonstrado pelo facto de, mais tarde, também ter reivindicado a autoria do icónico riff de guitarra de Pinhead e o nascimento do slogan agora culto „Gabba Gabba Hey!”.

SAÍDA DA BATERIA E AS EXPERIÊNCIAS DOS ANOS 80
Após três álbuns revolucionários (Ramones, Leave Home, Rocket to Russia), Tommy decidiu em 1978 sair da banda. As turnês quase sem interrupção, bem como os constantes conflitos pessoais entre os membros dos Ramones, desgastaram-no completamente ao longo do tempo. Mais tarde, afirmou que, em retrospetiva, provavelmente sofria de depressão clínica, sentindo que, se permanecesse na banda, colapsaria mentalmente. Passou as baquetas para Marky Ramone, mas continuou a desempenhar um papel crucial na vida dos Ramones como produtor e figura de bastidores. Trabalhou como co-produtor no álbum Road to Ruin e regressou como produtor em 1984 para a criação de Too Tough to Die.
Após a sua saída dos Ramones, não deu as costas à música, procurando novos rumos. No início dos anos 1980, estabeleceu uma estreita relação profissional com o irmão de Joey Ramone, Mickey Leigh, com quem realizou várias gravações - entre outras na formação chamada The Rattlers.
Tornou-se também um profissional requisitado como produtor. A ele se deve o clássico de 1985 dos The Replacements, Tim, bem como o álbum Neurotica dos Redd Kross. Em 2002, voltou a contactar os seus antigos companheiros de banda ao supervisionar, como produtor, a gravação conjunta de Marky Ramone e C.J. Ramone, a canção The Bowery Electric, criada em memória de Joey Ramone. Dois anos mais tarde, a 8 de outubro de 2004 - no aniversário de Johnny Ramone - voltou a subir ao palco como um Ramone após muito tempo, no concerto de caridade Ramones Beat Down on Cancer, acompanhado por C.J. Ramone, Daniel Rey e Clem Burke.
REGRESSO ÀS RAÍZES: UNCLE MONK
Numa fase posterior da sua vida, Tommy afastou-se gradualmente do rock barulhento e virou-se para a música folk americana tradicional e acústica. Em 2006, com a sua companheira Claudia Tienan, fundou a formação chamada Uncle Monk.
Na banda, Tommy tocava bandolim e cantava. A sua música representava o estilo „alt-bluegrass”, que fundia o bluegrass tradicional americano com a atitude punk. Segundo Tommy, existem inúmeras semelhanças entre o bluegrass e o punk: ambos comunicam com o público através de meios diretos, honestos e simples. Os Uncle Monk atuavam principalmente em clubes e, em 2006, lançaram o seu álbum de estreia intitulado Uncle Monk, que recebeu uma receção crítica favorável.
IDENTIDADE HÚNGARA E O REGRESSO A CASA
Tommy Erdélyi não esqueceu as suas raízes. Em 2008, mais de cinquenta anos depois, visitou a sua casa em Budapeste. Emocionado, visitou os locais da sua infância: a casa na Bajcsy-Zsilinszky út, a escola na Szemere utca e a Ilha Margarida. Numa reportagem televisiva, falou com entusiasmo sincero sobre o quanto ansiava por provar novamente o „kifli” e a „pogácsa” húngaros - os sabores de casa. Embora não falasse húngaro com ninguém desde a perda dos seus pais (na altura há cerca de dez anos), demonstrou os seus conhecimentos linguísticos durante as entrevistas.
O ÚLTIMO ACORDE
Tommy Ramone faleceu a 11 de julho de 2014, aos 65 anos, na sua casa em Queens, após uma longa batalha contra o cancro. Com a sua morte, partiu o último membro fundador dos Ramones originais. Depois de Joey, Dee Dee e Johnny, encerrou-se definitivamente um dos capítulos mais importantes da história do punk. No entanto, Tommy não foi apenas o baterista dos Ramones: foi um dos organizadores, compositores, produtores e motores criativos mais importantes da banda. Sem o seu trabalho, a história do punk rock teria sido completamente diferente.
PLACA COMEMORATIVA EM BUDAPESTE
Dois anos após a sua morte, a 11 de julho de 2016, foi inaugurada uma placa comemorativa em honra de Tommy Ramone na parede da sua antiga casa em Budapeste, na Bajcsy-Zsilinszky út 36–38, junto ao cinema Toldi. A placa foi colocada no edifício onde Tommy Erdélyi passou os seus anos de infância, antes de emigrar com a sua família para os Estados Unidos após a revolução de 1956.
O legado de Tommy Ramone continua vivo mais de meio século após a fundação dos Ramones. Em 2002, os Ramones foram induzidos no Rock and Roll Hall of Fame, do qual Tommy Ramone - ou seja, Tamás Erdélyi - é o único membro nascido na Hungria. A sua carreira continua a ser considerada uma das histórias de sucesso internacional mais significativas da música popular húngara.
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