O que aconteceu no dia 4 de junho de 1976 em Manchester? A história completa e o impacto do concerto dos Sex Pistols.
O verão de 1976 em Inglaterra foi escaldante e sufocantemente aborrecido. Em Manchester, a desesperança era a experiência fundamental dos jovens: as tabelas de sucessos eram dominadas pelos ABBA, e a música rock era representada por bandas "dinossauro" distantes e inacessíveis. Foi nestas águas estagnadas que ocorreu a explosão no Lesser Free Trade Hall, que Steve Diggle (Buzzcocks) mais tarde descreveria simplesmente como:
"O dia em que o átomo do punk se dividiu." Embora houvesse pouco mais de quarenta pessoas na plateia, muitos dos presentes mais tarde formaram as suas próprias bandas ou remodelaram fundamentalmente a indústria musical britânica.
A IDEIA DE DOIS ESTUDANTES DE BOLTON
O concerto não teria acontecido sem dois estudantes universitários de tecnologia de Bolton, Howard Trafford (mais tarde Howard Devoto) e Pete McNeish (mais tarde Pete Shelley).
- A faísca: Em fevereiro de 1976, leram um artigo curto e de tom negativo na NME (este foi um dos primeiros artigos sobre os Sex Pistols) sobre uma nova banda de Londres que "queria o caos". A famosa frase do guitarrista Steve Jones - "Na verdade, não estamos interessados na música, mas no caos." - despertou imediatamente o seu interesse.

- O encontro: Pediram um carro emprestado, viajaram para Londres e visitaram o empresário na loja de Malcolm McLaren, chamada Sex. Daí foram a um dos concertos da banda, que teve um impacto decisivo em Devoto. Depois de ver a banda ao vivo, a sua vida mudou radicalmente.
- A organização: Decidiram trazer os Pistols para o norte. O objetivo deles era em parte egoísta: queriam proporcionar uma oportunidade de atuação para a sua própria banda em formação, os Buzzcocks. Como não havia nenhum clube dedicado ao punk em Manchester, usaram os seus contactos pessoais para reservar a sala.
O local e as circunstâncias
O local do concerto foi o Lesser Free Trade Hall, um auditório mais pequeno, revestido a madeira, um pouco frio e rígido, do maior Free Trade Hall.
- Data: 4 de junho de 1976.
- Preço do bilhete: 50 pence.
- O ambiente: Não houve pogo, não houve empurrões. O público estava sentado em cadeiras individuais, em silêncio, observando os eventos atónito, literalmente de boca aberta.

Equipa técnica e documentação histórica
A atuação de 4 de junho é um dos documentos audiovisuais mais importantes da história dos Sex Pistols. Sobreviveu como a segunda gravação de vídeo mais antiga conhecida da banda e
é a primeira gravação em que não só o material visual, mas também o áudio do concerto foram preservados para a posteridade.
- Engenheiro de som: Dave Eyre (ele gravou a única cassete áudio sobrevivente desta noite).
- Iluminação: Neal Holden.
- Memórias visuais: No local, Paul Welsh tirou fotografias e Mark Roberts filmou parte do concerto com uma câmara Super 8. A filmagem original de apenas quatro minutos é hoje um documento de época extremamente valioso, o material completo foi vendido em leilão em 2021 por 15 000 libras. Felizmente, no entanto, vários clipes curtos vazaram ou foram tornados públicos ao longo dos anos, de modo que hoje podemos ter um vislumbre da atmosfera do concerto não apenas a partir de algumas imagens estáticas, mas também de detalhes em movimento.
O CONCERTO
A banda de abertura acabou por ser uma banda local de hard-rock, os
Solstice, porque os Buzzcocks não conseguiram encontrar um baixista a tempo, pelo que ainda não puderam subir ao palco. Isto também frustrou o plano original de Howard Devoto e Pete Shelley de apresentar a sua própria banda ao público de Manchester ao lado dos Sex Pistols.
Os Sex Pistols em palco
A atuação em Manchester foi o trigésimo concerto dos Sex Pistols. Embora a sua reputação nacional ainda estivesse a emergir, o caráter de palco da banda já era facilmente reconhecível nesta altura. A banda tocava com uma energia crua e de confronto, e Johnny Rotten já dominava o palco com a mesma atuação provocadora que mais tarde o tornaria numa das figuras mais conhecidas do punk.
- Steve Jones (guitarra): Usava um fato de macaco de uma peça e tocava guitarra ao estilo de Pete Townshend (The Who), com movimentos teatrais e grandes círculos com os braços. Anos mais tarde, numa entrevista a Tony Wilson, ele admitiu: naquela época, era secretamente um grande fã da banda americana de arena-rock Boston, mas, como punk, é claro que não se atrevia a contar a ninguém.
- Johnny Rotten (voz): Encarava o público com olhos fixos, enlouquecidos e rígidos. Era imprevisível, insultava os espectadores, dizia palavrões e provocava os jovens, que na sua maioria ainda tinham um visual hippie.
A viragem musical: No início, o público simplesmente não compreendia o ruído. Segundo eles, o ponto de viragem chegou com a versão de "(I'm Not Your) Steppin' Stone" dos The Monkees. Foi esse o momento em que os espectadores reconheceram a melodia, que por si só era um sucesso, sob o caos distorcido, e compreenderam o que os Pistols estavam a fazer: a destruir tudo o que a sua geração acreditava sobre a música pop.
O LENDÁRIO PÚBLICO "QUEM LÁ ESTEVE, FORMOU UMA BANDA"
De acordo com a lenda de Manchester, milhares de pessoas afirmam hoje ter estado presentes, mas, na realidade, o número era de apenas entre 35 e 40 pessoas. No entanto, este punhado de pessoas que se sentou na sala representou o futuro da música popular britânica. A investigação de David Nolan apontou: a magia do concerto estava na mentalidade especial de Manchester. Os espectadores não pensavam "Uau, eu também quero ser assim", mas sim: "Bolas, eu consigo fazer mil vezes melhor do que estes tipos!"
- Bernard Sumner e Peter Hook: Após o concerto, um impressionado Peter Hook entrou na loja de música Mazel’s em Manchester e comprou uma guitarra baixo por 35 libras. Formaram a banda Warsaw, que se tornou nos Joy Division, revolucionando a indústria musical, e mais tarde nos New Order.
- Morrissey: Estava sentado na plateia, embora inicialmente cético, e mais tarde escreveu uma carta crítica à NME, criticando a música desarmoniosa. Mais tarde formou os The Smiths.
- Mark E. Smith: O caos e a energia da noite deram-lhe o impulso final para criar os The Fall.
- Mick Hucknall: Ele também esteve presente, tornando-se mais tarde o vocalista dos Simply Red, que conquistaram o mundo.
- Tony Wilson: Como apresentador da Granada TV, ele viu a banda e decidiu levar o punk para a televisão, fundando mais tarde a lendária Factory Records. (e o clube The Haçienda).
- Paul Morley: Começou a escrever como resultado do concerto e mais tarde tornou-se um dos jornalistas mais influentes da história da NME.
MEMÓRIAS ENFEITADAS E A REALIDADE
A mitologia daquela noite foi profundamente absorvida pela cultura popular, embora nem sempre permanecendo fiel aos factos. A cena de abertura do filme de culto 24 Hour Party People, que relata a vida de Tony Wilson (e a formação da cena de Manchester), também retrata este concerto icónico.
A mitologia daquela noite foi profundamente absorvida pela cultura popular, embora nem sempre permanecendo fiel aos factos. A cena de abertura do filme de culto 24 Hour Party People, que relata a vida de Tony Wilson (e a formação da cena de Manchester), também retrata este concerto icónico.
"A cena no filme é uma ótima coleção de mentiras, mas de uma forma estranha transmite perfeitamente a essência." – afirmou mais tarde o verdadeiro Tony Wilson.
O filme vs. a realidade: No filme, o público salta e vai à loucura. Na realidade, no entanto, a 4 de junho de 1976 o pogo ainda nem sequer tinha sido inventado! Como recordaram os participantes, incluindo Wilson: as pessoas sentaram-se rigidamente, coladas às suas cadeiras, em silêncio, de queixo caído, a observar em estado de choque os quatro jovens londrinos no palco. Os saltos no filme são, portanto, apenas uma construção de mito retroativa e um pouco falsos, mas, como disse Wilson, captam maravilhosamente a energia revolucionária do evento. (É interessante notar, no entanto, que nas filmagens divulgadas em 2021 podem ser vistas algumas mãos levantadas e algum movimento em frente ao palco.)
A CONTINUAÇÃO
Embora seis semanas mais tarde, a 20 de julho de 1976, os Sex Pistols tenham regressado ao Lesser Free Trade Hall para uma segunda atuação, onde uma multidão de centenas de pessoas se reuniu, o pogo apareceu, foi tocada pela primeira vez a música
Anarchy in the U.K. e os Buzzcocks também atuaram com sucesso, muitos ainda rastreiam o nascimento do pós-punk britânico e da cultura musical independente até à primeira noite de 4 de junho. Esse concerto, que inicialmente causou um choque incompreensível, desencadeou processos que mudaram fundamentalmente a cena musical em Manchester e, mais tarde, em toda a Grã-Bretanha.
Cinquenta anos depois, é difícil imaginar que um dos momentos mais importantes na história da música alternativa britânica moderna foi testemunhado no local por apenas algumas dezenas de pessoas. No entanto, naquela noite em Manchester, não ocorreu simplesmente um concerto – nasceu uma nova era.
SABER MAIS
O impacto e a lenda do concerto têm fascinado os historiadores da música e os fãs desde então. Ao longo dos anos, vários livros e documentários foram feitos sobre o assunto, sendo os materiais mais importantes talvez os seguintes:
-
Livro:
David Nolan: I Swear I Was There: The Gig That Changed the World (2006)
(A pesquisa mais abrangente sobre quem esteve realmente presente naquela noite de verão.) -
Documentário 1:
I Swear I Was There (2001)
(Documentário televisivo de David Nolan com memórias dos participantes originais.) -
Documentário 2:
Granada TV – Reportagem de Mark Radcliffe (1996)
(Documentário da Granada TV transmitido em 1996, apresentado por Mark Radcliffe.) -
Gravação de áudio completa do concerto:
Sex Pistols live Lesser Free Trade Hall Manchester (June 4th, 1976)
-
Filmagens raras em vídeo: Excerto de reportagem televisiva de leilão
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